Thursday, April 14, 2011

Land art, Foz do arelho









Já eram uma ou mais da manhã, coloquei um saco transparente na cabeça e deixei-me ir sem saber para onde. A intenção era ir para um campo onde se pudessem cheirar as flores desta primavera, que com sorte na vida... irei experienciar apenas mais umas sessenta vezes.

A plataforma que se sustentava e deslocava no espaço, movimentava-se projetando o meu corpo com ela para um local sem comprometimento algum com o tempo e fazia-me balançar sobre mim própria enquanto as luzes se expandiam e eu entrava nelas como se em túneis, como se viessem contra mim.

Contra a primavera, acabei na praia. Lá descontente, por querer algo que ali não tinha, vi na areia aglomerados de canas que me pareceram quase de uma fogueira gigante que nunca tinha sido queimada ou de pequenas casas de animais que ali tinham sido experimentadas. Levantei os olhos e vi alguns vultos de outras fogueiras que se distanciavam umas das outras, perante os meus olhos em passadas apressadas de 20 segundos. Se tinha sido um acaso ou não, se lá estavam assim porque sim, então porque não? E coloquei mãos à obra.

"Vou fazer uma intervenção", e sem saber muito bem o quê, fui construindo uma espécie de grades na areia, espetando cada cana, uma a uma, ligando o céu com a terra.

Inicialmente queria marcar como que um espaço de um grupo que lá esteve, em forma de meia elipse. O espaço estava marcado e comecei a escavar um buraco em frente dessa elipse quando entretanto encontrei uma rede. Com ela moldei a terra, fazendo com que um padrão saísse do buraco e se espalhasse sobre a areia. Cansada, levantei-me e vi ao longe uma vontade de tocar na água sem ter que sair do lugar onde eu estava. Essa semi-consciência que me tinha sido doada pela fragilidade humana fez-me querer ligar a elipse à água, tornando aquele local de contemplação visual numa possibilidade de tocar na água sem esperar que a maré enchesse. Começou então o trabalho mais demorado, ligar a elipse àgua...

Após a ultima cana, regressei pelo lado de dentro da praia, encostada às grades e recolhendo o lixo que encontrei e que de uma só leva me cabia nas mãos, até ao cimo onde se encontrava o local onde aquele grupo nunca existiu. Quando ia jogar o lixo para dentro do buraco e terminar, por mais inacreditável que pareça... uma estrela cadente... enorme..... apareceu exatamente no momento em que já tinha dado o balanço ao braço. Era tão grande que eu pensei ser um meteorito... enfim... lá pus o chinelo e os frascos de plástico no buraco e sentei-me ao meu lado.

Se ganhei algo desta noite, com toda a certeza foram músculos nos braços, num local onde nunca os tinha sentido, mesmo por cima das axilas.


Tuesday, April 05, 2011

Será que o tempo é realmente esperto?




Escrito a 03.Jan.2006

A revolta do tempo contra a evolução, o atraso macabro das cores que se arrastam todas ao mesmo tempo para trás, de retorno à antiga estrada que forma um tom cinzento e acaba por cobrir o ar.

Um lenço preto, que cobria a cara de uma criança, é esquecido, num parque infantil enferrujado de leves sons agudos que anunciam o segredo e mistério.

E lá se encontra, naquela estrada cinzenta, a criança, a criança com a cara destapada encostada a uma pequena estória. multiplicada por gerações anteriores, por fórmulas para fazer acontecimentos, conhecidas à nascença por cada um e esquecidas na velhice por todos.

O som da espera era infantil, agora é uma anunciação de imaginar outras fórmulas de acontecimento diferentes, neste momento o som é mais pessimista, mais realista e menos animado, que compõe um outro tipo de melodia. Uma melodia mais automática e menos trabalhada numa espera, o momento não voa e momentos depois esse próprio tempo continua numa revolta contra a sua própria evolução.

Inicio Agosto 2008

A noite sabe a altura, a montanha,
sabe ao cume e ao outro lado que não vejo.
Deixo pegadas onde não vejo
que formam desenhos, ou apenas um só desenho.
As marcas de passagem invisíveis
e cruzadas, abstratas (ou não).

Quem me dera poder lembrar-me de todos
os passos que já dei, todos os sitos por onde passei
e desenhar, sem levantar a caneta, a linha.

Olho para mim de olhos fechados
e vejo-me. Não tenho traços, principio nem fim.
Não me lembro da minha primeira memória
nem sei qual será a última.
Sou eterna, sou
o que me lembro que sou, sou o que quero
ser, sem nunca o conseguir.

(inicio) Agosto/2008